É infelizmente comum ouvirmos dizer que o Algarve é uma região pouco rica em monumentos, mas como já tive a oportunidade de argumentar em alguns artigos que assinei para este mesmo jornal, tal afirmação provém muito mais do desconhecimento que a maioria dos portugueses revela sobre o património cultural do seu país, do que de uma realidade concreta.
Conscientes da excessiva dependência do Algarve relativamente ao produto “sol e praia”, os responsáveis pelo sector tem vindo ao longo dos últimos anos a apostar cada vez mais na diversificação da oferta turística da região, com vista a combater a sazonalidade e a concorrência crescente de outros destinos turísticos. Nesse sentido, para além do golfe e dos eventos a aposta recai também no aumento da oferta cultural, servindo o programa Allgarve como um dos principais instrumentos de actuação.
Cabe contudo às autarquias, em parceria com as entidades que tutelam o património, participar neste esforço com vista à qualificação da oferta turística da região, através de uma aposta na divulgação do património cultural algarvio.
Entre os vários recursos culturais da região, encontram-se a gastronomia, o artesanato, ou as tradições e os saberes, mas nenhum possui um potencial turístico tão significativo como o nosso património arquitectónico e artístico.
Com efeito, é possível identificar perto de uma centena de igrejas, capelas, conventos, castelos, fortalezas, palácios e palacetes, que em virtude do seu valor histórico ou artístico podem e devem contribuir para a valorização da oferta turística do Algarve e servir simultaneamente como instrumentos da acção pedagógica desenvolvida pelas instituições de ensino.
Lamentavelmente, são muitas as autarquias que parecem não ter ainda despertado para esta necessidade, desperdiçando assim um importante recurso económico.
Entre os muitos casos que se registam um pouco por todo o Algarve, gostaria de destacar aquele que é, em minha opinião, um dos mais incompreensíveis. Trata-se da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, em Faro.
Construída entre os finais do séc. XVII e do séc. XVIII, a Igreja de São Francisco é indiscutivelmente uma das mais bonitas do Algarve. Trata-se de um templo de nave única, com planta longitudinal, capela-mor com cobertura abobadada e uma cúpula oitavada.
No interior, podemos apreciar uma enorme diversidade de manifestações e estilos artísticos, que pela sua qualidade, produzem um forte impacto visual.
A qualidade do programa decorativo desta igreja está bem patente no elevado valor artístico dos altares, o revestimento em talha da cúpula e os painéis de azulejos que revestem toda a capela-mor, a igreja de São Francisco apresenta um dos melhores conjuntos decorativos barrocos do sul do país.
Mas a somar à talha e aos azulejos, temos ainda as pinturas italianas, encomendadas pelo Bispo D. Francisco Gomes do Avelar aos pintores Marcelo Leopardi e Libório Guerini. Trata-se de um conjunto de quatro telas, executadas segundo o formulário neoclássico, que representam cenas da vida de São Francisco.
Como facilmente se pode perceber por esta breve descrição, a igreja da Ordem Terceira de São Francisco é sem dúvida um dos maiores tesouros artísticos do Algarve, facto que naturalmente lhe confere um potencial turístico assinalável.
Como se explica então que este monumento, localizado junto ao centro histórico de Faro, continue fechado ao público em geral, abrindo unicamente ao culto?
Porque motivo a CMF não desenvolveu ainda esforços no sentido de garantir as condições necessárias para que este importante monumento da cidade de Faro possa receber os muitos turistas que nos visitam?
A resposta reside evidentemente na relativa negligência a que a autarquia farense tem votado o património cultural do seu concelho.
Veja-se por exemplo o estado em que se encontra a muralha de Faro, constantemente vandalizada pelos “artistas” do graffiti, a degradação das placas de identificação turística colocadas junto aos principais monumentos da cidade, (a da Igreja do Carmo encontra-se totalmente ilegível), a pilhagem a que durante anos esteve sujeito o Palácio de Estoi, ou ainda o mais recente episódio da iluminação do largo da Sé.
O atraso da autarquia farense em reconhecer o verdadeiro potencial do seu património cultural e a sua falta de capacidade para implementar uma estratégia de valorização da oferta turística, que assuma como vector principal a reabilitação e dinamização do centro histórico de Faro, é reveladora da falta de visão dos responsáveis políticos, mas indicia também a incapacidade dos serviços técnicos a quem cabe gerir os problemas relacionados com a gestão e reabilitação do património histórico da cidade.
* Docente e Investigador Universitário























