Confesso que sou um adepto do ciclismo, como a maioria dos homens da minha geração, embora o entusiasmo da volta a Portugal, recentemente concluída, já diga muito pouco aos adeptos portugueses, mais habituados ao “desporto de sofá”. No Verão, em que o futebol estava de férias, agora quase não existe “defeso” e o jogo nos entra pela casa dentro, vibrávamos com os feitos épicos dos homens do pedal. Havia os feitos dos ciclistas, é verdade, mas a paixão era fruto das rivalidades clubistas entre o Benfica, Sporting e Porto que tinham equipas de ciclismo e transportavam para a estrada essa “clubite”. Joaquim Agostinho, pelos seus feitos na volta à França e em Portugal, como outros heróis, também cativou adeptos para essa modalidade.
Mas não é de ciclismo, em geral, mas de bicicletas, em particular, que desejo escrever hoje. No passado, as bicicletas eram os “carros” de hoje, como ainda o são nalguns países (alguns ricos e outros pobres), isto é, aquele veículo de duas rodas, movido com a força das pernas do seu condutor, servia para transportar pessoas, alem do condutor, mas também objectos. Era também um veículo utilizado em determinadas profissões. Por exemplo, serviam-se das bicicletas, os guardas (agora novamente em uso pela GNR), os carteiros, os padeiros, etc, etc. Com o “desenvolvimento”, esta foi perdendo utilidade e hoje é, na maioria dos casos, um veículo de lazer, como muitas variantes desportivas também.
Os problemas da poluição nas cidades e tentando juntar o útil ao agradável, algumas autarquias têm desenvolvido um conjunto de iniciativa para levarem a população a retomar o uso deste prático e salutar veículo de locomoção. Muitas delas têm mesmo um conjunto de bicicletas distribuídas pela localidade, de modo a que os cidadãos as possam utilizar, na circulação dentro da povoação, em muitos casos gratuitamente. Citaria aqui, como exemplos, a cidade de Aveiro, e as vilas de Cascais e de Oeiras que terão sido pioneiras na disponibilização destes equipamentos nas suas áreas. Outras limitam-se c construir ciclo vias. Infelizmente, os automobilistas portugueses (os tais que mudam de personalidade sempre que têm um volante nas mãos, dando largas a toda a sua agressividade) entendem que os ciclistas “estorvam” as suas vias e não facilitam, bem pelo contrário, com os perigos daí advindos.
Nalguns países, principalmente naqueles onde a prática desportiva é levada mais a sério do que no nosso país, o retomar do uso da bicicleta, em lazer e ou mesmo como transporte alternativo, está na moda e com tendência para crescer. Algumas das grandes cidades, onde os problemas da poluição provocada pelo trânsito automóvel ameaçam a qualidade de vida, têm já em prática um sistema semelhante aos mencionados atrás, isto é, têm distribuídas por diversos pontos, bicicletas para serem utilizadas pelos cidadãos, incluindo os turistas. Noutras, como Londres, por exemplo, que não “oferece” esse parque de veículos de duas rodas, são os cidadãos que utilizam as suas próprias bicicletas nas suas deslocações (serpenteando pelo meio do caótico trânsito) e o próprio metropolitano londrino desenvolve campanhas de sensibilização para a utilização das bicicletas e no fim de semana, facilita o transporte destas nas carruagens. Em muitas outras cidades, a utilização da bicicleta como veículo de deslocação citadina é uma prática enraizada, ao contrário do nosso e não venham com a desculpa estafada de que as nossas cidades têm desníveis nas suas ruas e avenidas.
Paris é outro dos bons exemplos, que pude presenciar recentemente. Ali, existem excelentes e funcionais bicicletas distribuídas pela cidade para serem utilizadas, mas não gratuitamente (infelizmente em muitas situações o gratuito sai caro). Estas podem ser utilizadas, mediante o pagamento, por cartão Multibanco, numa caixa automática ali colocada para o efeito, que também liberta a respectiva bicicleta do sistema de segurança. A utilização também pode ser feita através do “passe” dos transportes públicos. Agradável surpresa para um português que visite Paris é que aquelas bicicletas são portuguesas, isto é, a câmara de Paris abriu um concurso internacional para o fornecimento do equipamento e este foi ganho por uma empresa portuguesa que forneceu as bicicletas.
E por cá, numa época em que a poluição e os problemas dos combustíveis (escassez e aumentos dos preços), aliados à necessidade imperiosa de todos nós termos que fazer exercício físico, para defesa da nossa saúde, que projectos, como os atrás citados (nacionais e estrangeiros) podem e devem ser desenvolvidos e implementados? Campanhas de sensibilização para a utilização da bicicleta e projectos e acções nesta área são imperiosamente necessários. Junte-se o útil ao agradável e os resultados serão duplamente vantajosos. Os bons exemplos podem e devem ser imitados, porque “a roda foi há muito descoberta”.
* Economista


























